Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

a alma da flor

a alma da flor

Eu não sei que nome dar ao que sinto!

15.02.08 | DyDa/Flordeliz

Eu estava tão feliz, tão vaidosa. Tinha-mos recebido em casa uma boneca loira, que mexia, chorava e comia de verdade e era linda!

Lembro da primeira vez que te peguei ao colo com mil cuidados e como o meu coração batia descompassado por ver-te pequenina e frágil e que a todos inspirava cuidados e preocupação.

Foste a menina (única) do meu irmão mais velho. Mas foste para mim e para os avós a “nossa “ menina.

O tempo foi passando, tu foste crescendo, eu amadurecendo e ficando adulta. E alturas houve, em que eras tão “nossa” que nem sei se éramos irmãs, amigas, ou um pouco de tua mãe. Sentias que eu era tua e ficavas triste se me partilhavas. Pensavas que já não gostava de ti, ou te estava a substituir.

Qualquer chamada de atenção ou reprimenda tinha sempre como resposta:

- Saio à tia (ainda hoje é assim)!

Até que chegou a época de ires para a escola e lá foste saltitona e feliz. Eu adorava pentear ou enfeitar a tua cabecita cor de espigas doiradas ao Sol, eras alegre e divertida. 

Mas foi nessa época que a tua vida de menina feliz e despreocupada mudou!

O teu corpinho, a tua cabecita outrora macios, ficaram sarapintados de pequenas borbulhas, que te provocavam mau estar.

Recordo as nossas tentativas desesperadas em te aliviar a comichão, para não raspares a carne (como se fosse possível evitar que uma criança desesperada o não fizesse).

E foi a partir dai que começou a corrida para médicos, especialistas, hospitais. Acreditamos que fosse uma alergia difícil de passar.

Remédios, pomadas, líquidos de banho que cheiravam mal e que tu detestavas e não entendias porque os tinhas de usar. Rituais repetidos incansavelmente por mim, pela avó e pela tua mãe quando à noite chegava do trabalho. Mal abríamos um tubo de pomada ele desaparecia sem nunca cobrir todo o teu corpo.

- Como te lamentavas… Não paravas quieta… Refilavas …Eras criança!

A escola passou a ser para ti um sacrifício. Tinhas vergonha. A tua pele ficava vermelha, os cabelos ficavam gordurosos na tentativa de manter hidratado o teu couro cabeludo.

Na simplicidade (eram crianças como tu) de falar o que pensam sem rodeios, os teus coleguinhas diziam que não tomavas banho e estavas suja (não sabiam que tu fazias dois ou três banhos diários) e isso machucou-te e marcou-te! Passaste a ficar com febre muitas vezes só de pensar que tinhas escola no dia seguinte.

- As crianças podem ser tão cruéis!

Como a avó sofreu por ti! Todos nós… mas ela, era incansável em dedicação e cuidados!

Os dias foram passando, os meses, os anos…

E aquilo que não queríamos ver...ou ninguém tinha a coragem de chamar pelo nome chegou um dia:

– PSORÍASE*

Procuramos, investigamos, lemos… E o veredicto final era sempre o mesmo! SEM CURA! SEM TRATAMENTO CONHECIDO!

Aos poucos… o teu guarda-roupa deixou de ter camisolas sem mangas, as golas foram subindo, as saias e vestidos desapareceram. Instalou-se a revolta. O deixar de lutar…

- A vida foi tão difícil para ti!

Precisavas de alegria, precisavas de brincar, precisavas de crescer, precisavas de tranquilidade para ser feliz.

A época da praia (o sol fazia-te bem) era feita de negação em retirar a roupa. A avó e o avô iam para a praia contigo e todos tentávamos convencer-te que eras linda e as tuas “escamas” não tinham importância… Que grandes mentirosos nós éramos (apenas porque queríamos o melhor para ti).

Cresceste e foste ficando uma rapariga bonita, de olhar cativante e atraente. Sentias-te protegida nas tuas roupas quentes e desconfortáveis dos olhares curiosos, outros medrosos e alguns piedosos.

Nunca me vou esquecer uns anos depois de eu casar em que foste connosco pela Páscoa para o Algarve. Nesse ano o tempo estava excelente, com sol e calor. Tu estavas a adorar o hotel, a piscina, a praia. Afinal não havia ninguém conhecido por perto e todos os dias íamos para sítios diferentes. Muitas vezes falas dessas férias com olhar a brilhar.

Andavas por todo o lado descontraída, pouca roupa a cobrir-te o corpo. E eu sentia-me feliz por te ver assim solta e alegre também.

Mas,…

Caiem-me lágrimas sempre que lembro o dia em que vinhas da ilha da Armona alegre e conversadeira a falar de como estavas moreninha, como estavas bem melhor e que mais uns dias de sol e nem se notariam mais as manchas no teu corpo. Quando passaram por nós uns jovens da tua idade que sem dó espezinharam a felicidade de uma semana inteira transformando-o na tua e na minha infelicidade ao fazerem o seguinte comentário:

- Olha “esta” tem sida! E riram-se…

Tu disseste:

- Vês tia?! Vês?!

Não sei onde arranjei forças para segurar a raiva e as lágrimas. Ainda hoje não sei?!

Segurei a tua mão com força na minha e respondi:

- São uns parvos, armados em espertos e que apenas tentavam dar nas vistas! 

Não dei importância mudando de assunto. Mas enquanto te falava, o meu coração sangrava “nina” e ainda hoje sofro com o teu desespero, a tua mágoa, a tua tristeza, o teu desalento.

Casaste! Tens uma filha linda (a minha afilhada) que te adora!

Uma criança de coração bondoso, que vai recolhendo as pontas soltas que encontra ao longo do seu curto caminho.

A tua vida tem sido pautada por dificuldades (financeiras) e muitas desilusões (familiares pessoais).

Sinto que a tua capacidade de sofrimento está a ficar pesada demais e as forças te estão a abandonar.

Eu (todos nós) aprendemos a amar-te tal como és. Nunca houve repulsa em te tocar, em te beijar, em te abraçar. Mas existe uma raiva e uma impotência enorme em ver-te sofrer e nada poder fazer.

As tuas mensagens de desabafo deixam-me a mim também em desalento!…

Tento que oiças a voz da razão, tento dizer-te o que precisas ouvir, mas… Eu sei que és tu que tens a razão. És tu que sofres no corpo e na alma a dor e a desilusão!

Espero que encontres a ajuda necessária, o apoio que mereces, e consigas ultrapassar mais esta fase tão difícil de saúde psicológico e também familiar.

Tomara apareça a solução. Tomara consigas ser feliz. Tomara a vida abra o sorriso para ti.

“Nita” és sempre linda no meu coração!

 

*A psoríase é uma doença  de pele incurável e não contagiosa, nem por tranfusão sanguínea, sendo hereditariamente transmissível pelos genes do psoriático

 

 

 

 

 

 

7 comentários

Comentar post