Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

a alma da flor

a alma da flor

Para ti feliz dia

28.08.07 | DyDa/Flordeliz
 
 
28-08-1927                
Hoje as minhas memórias levaram-me ao jardim da quinta onde morávamos, onde orgulhosamente tu plantavas um canteiro de Túlipas e eu na minha traquinice infantil as cortava deliciada. Ainda hoje revejo o ar ameaçador que colocavas no rosto, mas não me impediu de, pela vida fora, as continuar a colher, recebendo sempre a reprimenda por deixar o teu jardim mais triste, encontrando no teu olhar o prazer de as poderes ver cortar e com elas enfeitar as jarras de nossa casa e mais tarde as da minha própria casa.
Lembro em especial a boneca grande e colorida que um dia me trouxeste (sei-o hoje) da Alemanha, e ainda uma outra de França, que foi iluminando o meu rosto de criança de prazer só de contemplar ao longe na cadeira do teu quarto ou em cima da cama. Pegava em especial nesta última. “Era linda de cabelos e olhos negros” com verdadeira adoração e cuidado para não estragar tamanha “preciosidade”. Até começarem a aparecer os teus netos e, em tão pouco tempo, acabarem com o que tinha durado uma vida!
Adoro as histórias que contas: da viagem em tempos difíceis, da insegurança, da incerteza de encontrar trabalho e uma vida melhor… Falas na tristeza, na solidão, mas especialmente da separação da tua família e da falta do teu pilar de apoio que era a nossa mãe! No entanto, fazes parecer a maior brincadeira e diversão a tua caricaturada chegada à estação de Paris. Quase conseguimos visualizar o pequeno homem “no alto” do seu metro e sessenta que vai arrastando a sua mala de dois metros de comprimento escadas acima, tocando em cada degrau. Não havia força para carregar uma mala repleta de roupa e tudo o mais que fosse possível imaginar – Pobre Emigrante Português!
Lembro-me ainda de tantas histórias que me fazem sorrir. Há uma especial de um miúdo pobre. Era triste mas pintavas com sabedoria tornando-a deliciosa. Sim essa… O miúdo que trabalhava contigo e caminhava quase sempre descalço. Esse, que na hora de almoço trepava ao cume das árvores imitando os pássaros, para que os colegas não percebessem que uma vez mais o almoço ficou esquecido “no vendeiro que não fiava mais”. Esse, com quem tantas vezes partilhavas “a marmita”, o almoço ou o lanche que a mãe preparava de manhã cedo para levares contigo para o emprego.
E ainda quando caiste, ficando como tu dizes (de unhas cravadas no cimento) à espera que o “Tota” te fosse tirar e te dizia: “Óh Ti-ínho espere que eu já o vou segurar”.
É uma delícia ouvir as tuas histórias. São tantas e ficas feliz de me ver sorrir, passando de uma para outra, até me doer a barriga de tanto “gargalhar”.
Quando olho para ti e vejo a tua pele queimada pelo Sol e pela chuva, encontro o mesmo olhar irrequieto e nervoso num corpo franzino e gasto pelo tempo, pelo trabalho e pelo peso dos anos. Mas acima de tudo isto, a preocupação obsessiva pela “tua” parceira de todos estes anos, que tu vais vendo lentamente a murchar junto a ti, custando-te a aceitar que um dia… a "vida" vos poderá separar.
É bonito ver os vossos olhares de cumplicidade, pelo caminho ficaram as discussões, os atritos, as perrices, transformando-vos em equipa única, em que cada um protege o outro com uma ternura e dedicação extrema.
Não me lembro de em criança ter recebido beijos, lembro-me de ter sido mimada pelo meu mano mais velho, talvez o mais novo tivesse ciúmes de mim, por lhe ter tomado o lugar, afinal eu era a mais pequenita.
Mas lembro que mos pedes hoje com frequência e isso me faz feliz e te faz feliz a ti também. Quantas vezes te despedes de mim antes de saíres? Há dias que muitas! Sei que és feliz quando recebes o meu abraço e a tua felicidade preenche a minha alma e o meu coração.
Muitas vezes a mãe diz que tens saudades minhas. Acredito!
Confias em mim e sabes que nunca vos abandonarei e farei o melhor que sei e for capaz. Acho que é essa certeza, esse apoio, que vens procurar no meu olhar ou no meu rosto quando te sentes mais frágil, ou tristonho.
Houve diferenças de mentalidade e de opinião ao longo da nossa vida. Claro que sim! Mas acredito e continuarei sempre a acreditar que fizeste por mim (nós) o melhor que soubeste e tiveste a possibilidade de fazer.
Hoje festejas os teus oitenta anitos (não parece!), espero que te sintas bem e feliz, pois mais importante que o número é ter uma vida para recordar a nossa passagem, sermos respeitados e amados como pessoas e encontrar vontade de chegar sempre ao dia de amanhã.
Obrigada pai e PARABÉNS.
           28-08-2007