Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

a alma da flor

a alma da flor

Porque somos tão maus?!

29.06.07 | DyDa/Flordeliz
Ainda tenho dificuldade em acreditar…
Alugamos um apartamento num daqueles modernos empreendimentos, que até lojas têm, ombreando com os centros comerciais. Mesmo em frente à nossa porta existia uma perfumaria que, por sinal, era pertença da dona do prédio.
Com muito sacrifício e dedicação, lá fomos conseguindo decorar aos poucos, conforme podíamos, a casa onde pretendíamos morar e começar uma vida a dois, assim que casados.
Moldamos o quarto a nosso gosto. Idealizamos criteriosamente as cortinas e o edredão. Depois de tanto vasculhar, encontramos tapetes a condizer perfeita e harmoniosamente com o ambiente, e o resultado foi melhor do que alguma vez havíamos sonhado. Estava sublime e perfeito.
Embora o dinheiro não fosse muito, para a sala compramos uns sofás lindos, ousados no design, diferentes na ligação das cores, mas definitivamente ilustrativos e condizentes com a nossa personalidade. Perdemos a cabeça e escolhemos uma televisão com um ecrã enorme que, ironicamente, ou não, teve um preço proporcionalmente exagerado.
Na cozinha tivemos que de fazer algumas restrições pois o orçamento não era elástico. Optamos por algo simples, mas prático, que nos fornecesse o necessário conforto.
Conseguimos ainda outra vitória mobilar um segundo quarto, com menos requinte, mas com muita alegria visual.
Quando olhamos para o resultado final, achamos que tínhamos conseguido exactamente o que pretendíamos, mas, infelizmente gastamos dinheiro a mais e fomos forçados a esperar algum tempo para realizar o resto do sonho: Casar!
O contrato de arrendamento já estava acertado, mas como queríamos habitar a casa só depois do casamento, acordamos que não a usaríamos até lá, deixando de a ir visitar. Lá fomos vivendo o nosso dia-a-dia, esperando ganhar um pouco de fôlego para as despesas seguintes, orgulhosos do que havíamos conseguido.
Os meses foram passando e um dia por acaso entrei na perfumaria. Escolhi o que queria e, de repente, tive a impressão de ver alguém a sair da porta do MEU apartamento. Olhei a funcionária que me reconheceu e retribuiu um olhar encabulado. Paguei, e saí sem nada dizer, mas com ar atarantado.
Quase me esbarrei na pessoa que entrava, a Mónica, minha sobrinha, que me viu com um ar pouco ortodoxo e imediatamente me perguntou:
 -Tia. Que tens, o que se está a passar?
Contei-lhe a dúvida que me tinha assaltado, ao que ela me disse:
 - Tiramos já isso a limpo!
Entramos de novo na loja, começamos por ver alguns produtos e reparamos que a empregada estava nervosa, muito atrapalhada sem saber o que fazer. Nem sequer se dirigia a nós. Pelo menos essa foi a impressão com que ficamos…
- Que achas? - Perguntei eu à Mónica.
Ela respondeu:
- Estranho… Costuma ser tão atenciosa, vou meter conversa!
Quando nos aproximamos notei que corou, mas dirigindo-se a mim disse:
- Sei o que viu, e não posso esconder mais, pois, é verdade e não concordo!
Mais confusa ainda, retorqui:
- Mas de que é que está a falar? Eu tive a impressão de ver alguém sair do meu apartamento há pouco, é isso que está a dizer?
Cada vez mais corada, respirou fundo e completou:
- Como deve compreender eu sou empregada e não posso falar da minha patroa mas, … acho que deve ver o que se passa, desculpe mas não posso dizer mais nada!
Olhei para a minha sobrinha com ar incrédulo, sem saber o que fazer. Saímos procurando perceber o que nos estava a tentar dizer.
Depois de muito matutar, combinamos encontrar-nos de novo depois de jantar e visitar a MINHA casa.
O dia custou a passar. Não falei a ninguém. Perto das nove da noite lá me encontrei de novo com a minha sobrinha à entrada do bloco de apartamentos. Sentia o coração um pouco apertado.
Quase nem falamos. À porta do prédio, olhamos uma para a outra espantadas, parecia haver luz, e até barulho de um televisor ligado algures. Trocamos olhares, a minha mão tremia. De repente ela pegou na minha mão e tirou-me a chave. Meteu-a na ranhura, ouvi o trinco rodar e a porta a escancarar-se.
Todo o apartamento era vida. A sala estava atolada de roupas depositadas pelos móveis, alguém via TV de pernas dobradas no meu sofá. Nem para nós olhou como se fosse normal entrar e sair gente. Ao fundo da sala, uma senhora cosia roupa na minha máquina de costura com uns óculos enterrados ao fundo do nariz.
Fomos entrando e, na minha cozinha, os pratos e panelas amontoavam-se com restos de comida por lavar, lixo pelo chão. Uma balbúrdia!
Mais dificuldade ainda tinha em entender como era possível alguém falar no quarto! Não uma voz, mas várias! Fui seguindo pelo corredor e encontrei raparigas numa amena cavaqueira. Os meus olhos estavam arregalados de espanto: a minha cama; a minha roupa; as minhas coisas! Como era possível?! Que se passava?! Que estava a acontecer?!
Não conseguia pensar, agarrei-me com força à Mónica que me seguia com um ar também incrédulo e aparvalhado, sem entender nada.
Voltei à sala e a mulherzinha finalmente se dignou levantar o nariz da máquina, olhando vagamente para nós. E… foi aí quando me reconheceu que fez um olhar comprometido.
 Pois era a minha senhoria, a pessoa a quem eu pagava a renda mensalmente do prédio que tinha alugado, onde eu tinha pensado habitar, onde eu e o meu namorado, tínhamos depositado todas as economias que tínhamos e algumas que não tínhamos, e que estávamos a pagar.
Olhei de novo à minha volta. Os sofás que eu escolhi não podiam ser aqueles sem cor, cobertos de nódoas.
Recuperei a energia e perguntei-lhe o que se passava! Porquê? Como explicava?
Ela respondeu com ar manhoso:
- Já que não o usava, dei-lhe uso para quem necessitava! Deixo as pequenas ficarem cá e dividem a renda.
 - Com que direito?! - Perguntava eu! - Com que direito?! Se eu pago, se eu tenho as minhas coisas, se eu...se eu...
Virei as costas furiosa, revoltada, cara fechada, rosto apertado pela raiva, sem saber o que fazer.
Regressei a casa, estava completamente amuada e sem recursos para ripostar.
Enfiei-me no chuveiro e a água quente que corria pelo meu corpo, acalmava-me e retemperava-me as forças.
De repente, abri um sorriso largo e soltei uma forte gargalhada. Estava irritada com um estúpido sonho.
Afinal nada como um duche para acordar! 
É nestas ocasiões que se aplica a expressão:
“E depois bateste com a cabeça na mesinha-de-cabeceira e acordaste!...”