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a alma da flor

a alma da flor

Tentemos!...

17.09.09 | DyDa/Flordeliz

Desde que me recordo que o meu pai ouve mal. Nunca foi surdo, mas sempre ouviu muito mal.

Sempre teve um enorme complexo. Por isso a minha mãe acabou por ser o acessório que minimizava a sua diminuta audição, até porque ele nunca assumiu que ouvia mal. Nunca admitiu que lhe falássemos em usar aparelho. Porque como ele costumava dizer: Tinha um ouvido afinado!
O meu pai sabe ler e escrever.
Já a minha mãe aprendeu a ler a vida sem letras.
Ela seguia na frente. Ele sempre a acompanhou. Ele senta-se ao volante do carro. Mas é ela que conduz no banco do passageiro.
Com mais de oitenta Primaveras, ele sonhou que haveria de escutar os sons que antes se negou (ao não querer aparelho) a distinguir. As conversas dos amigos no café, o telejornal e, sobretudo, ouvir-nos a nós.
Mas…
Como educar, depois de todos estes anos, a um cérebro velho, que há mais melodias para além da voz e da mímica da minha mãe?
E como vai conseguir a minha mãe, depois dos mesmos anos volvidos, deixar de ser o eco que o fazia entender o que ele não conseguia escutar e que ela repetia para ele?
Eu não acredito que ele consiga. Vai sentir falta de escutar apenas e só a melodia que era sua conhecida e se chamava simplesmente “ Maria”.

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