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a alma da flor

a alma da flor

Dependentes de um guia!

16.04.09 | DyDa/Flordeliz

Ele era alto, de cabelos grisalhos, ar distinto, um pouco curvado pelo peso das Primaveras. Ela era roliça e, embora mais nova, também o tempo tinha deixado os seus sinais.

Eram os próximos clientes do balcão da dependência bancária onde me encontrava. A minha atenção despertou e foi ficando presa ao casal. Não sei se pelo trejeito ou pelo ar distinto do cavalheiro, se pelo toque delicado e respeitoso da sua mão sobre os ombros da senhora na tentativa de a escutar e perceber enquanto se curvava sobre ela, ou se pelo ar simples e recatado da senhora que lhe ia falando baixinho. O mais provável, se calhar foi o facto de ser hora de almoço para muitos e haver pouca gente e com isso ia passando o tempo, esperando a chegada da minha vez para ser atendida.
Não tiveram de abordar a menina que estava no caixa que, reconhecendo o cavalheiro, prontamente falou para a senhora com ar de quem dominava, e bem, o assunto que ali os levara:
- A senhora é familiar?
Franzi o sobrolho pois ela tinha levantado um pouco o tom da voz o que me aguçou ainda mais a curiosidade.
Um pouco tímida a senhora explicou:
- Não! Sou amiga dele e ajudo-o quando me pede, e…
- Ainda bem que alguém se preocupa com o Sr. Ferreira. Resolvi retirar-lhe o cartão MB porque na verdade (e aqui a menina gaguejou, procurando as palavras notando-se pouco à vontade com a situação, mas continuando firme nas suas convicções) ele não tem capacidade ou responsabilidade para o usar. O senhor já perdeu vários. Não sabe usar o cartão sozinho e pede a qualquer pessoa que o use por ele. Aliás, quando o mesmo lhe foi retirado ele tinha o código junto e como sabe, nos tempos em que estamos, ele pode ser enganado e roubado. O banco entendeu que não deve dar um cartão a quem não lhe dá um correcto uso, até para segurança do próprio cliente. Assim, sugiro que sempre que precise de dinheiro o venha aqui levantar ao balcão, mesmo que lhe fique um pouquinho mais dispendioso, pois com toda a certeza é mais seguro.
Pareceu-me que a senhora entendeu o recado e não insistiu nem comentou sobre o que lhe foi dito.
Quanto ao senhor sei (e a funcionária também!) que voltará de novo amanhã porque já se esqueceu da conversa de hoje e na sua memória apenas ficou o registo da falta do cartão MB na sua carteira e que o deve tentar recuperar no seu banco.
Não tive coragem de olhar para os dois! Era a minha vez…
A funcionária cumprimentou-me e eu entreguei-lhe o depósito sem a fixar esperando que não me dirigisse a palavra, mas…
Foi quando me tentou explicar a situação que se me toldou o olhar denunciando de quanto me tinha deixado invadir pela tristeza de toda a situação.
Imaginei o meu pai…
Imaginei-me um dia ficar assim… dependente…perdida!
Tentei disfarçar as “malditas” e não comentei o assunto com ela. Tentei sair dali o mais rápido possível. Tentei sentir o ar no rosto e sacudir esta realidade que aflige tantos “ Senhores Ferreiras” e que mexeu comigo fazendo-me sentir pequenina e impotente.
Raios!...

Eu sei que deveria escrever sobre coisas alegres. Eu sei que é muito mais agradável para quem lê. Mas escrevo o que sinto em cada momento. E se é triste que me sinto. Não sei fazer de conta que estou a sorrir. 

 



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