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a alma da flor

a alma da flor

A minha cruz!

23.02.09 | DyDa/Flordeliz

Nuvens de vapor  subiam e inundavam a casa de banho, deixando o ar denso e nublado.

Cuidadosamente, ele foi passando uma perna de cada vez, em gestos lentos, deixando-se deslizar suavemente na banheira acabada de encher, deixando-se vencer pelo cansaço, amolecendo na água um pouco quente demais.
Já coberto até ao pescoço e sem se mexer balbuciou numa voz suave mas carregada de dramatismo:
"Hoje levei uma carga de lenha e mais estava sozinho. Aliás, ninguém me tocou sequer!...."
Eu sentia-me lenta, com dores no corpo, ansiando também pelo toque da água quentinha para relaxar os membros doridos. Olhei na sua direcção e, franzindo a testa, fiz ar de quem não tinha entendido o comentário.
Foi quando o senti rodar a cabeça, virando o rosto na minha direcção, de olhar matreiro que, nos fez desatar logo de seguida às gargalhadas. 
Tens razão! Hoje levamos cada um com uma valente carga de lenha! Mas não de porrada. De lenha pesada como chumbo que o nosso corpo não está habituado a carregar.
Por momentos recuei no tempo até ao inicio da tarde de hoje. Caminhávamos juntos no monte, mas aos poucos fomo-nos separando, seguindo cada um o seu trilho e a sua tarefa.
A determinada hora, exausta, com o suor a escorrer pelas costas e a sede a apertar, enquanto “heroicamente” carregava sobre o ombro um tronco maior que o meu tamanho e a minha força, sentia a carne trilhada e o peso sobre as costas e as pernas que me fazia tropeçar, ouvindo atrás de mim a ponta do pau que se arrastava ritmado pelo chão de terra fazendo, rrrrrrrrrr...
Dei comigo a rir sozinha enquanto imaginava a cena que estava a fazer ao arrastar-me com esforço pelo monte acima. O meu pensamento voou em recortes de filmes como o da “Paixão de Cristo” ou as procissões que antecedem a época da Páscoa.
Naquele momento eu era uma daquelas figuras que encarnava o papel de Cristo, com a cruz às costas para ser crucificado. Pensei como seria difícil carregar uma cruz de pau e suportar a sede que, com o cansaço e a dor se torna impossível de ignorar.
Meditei ainda: se Cristo existiu (e muitos existiram e existem), ninguém merece receber tão duro castigo, sofrendo na carne a dor, o ódio, a vingança e o escárnio de outro ser humano.
Sorri de novo por me ter deixado levar pelos pensamentos. Afinal, eu não fui obrigada a carregar lenha às costas, não fui castigada e muito menos o meu filho foi obrigado a ir connosco.
Mas tirando o mau estar e o cansaço, todos chegamos com um ar de prazer estampado no rosto pela tarefa superada.
E…até chegamos inteiros a casa. (Ou quase!)
  

 

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