a alma da flor
24
Out 10

Habitualmente ando de sorriso estampado no rosto. Há naturalmente excepções, que não passam pela segunda-feira, para mim um dia como outro qualquer, ou não passasse eu a casa dos cinquenta, logo fora daquelas jogadas do fim-de-semana que fazia na década dos vinte.

Claro que não são as vinte e quatro horas do dia, nem tão pouco durante as cerca de dezoito que passo fora da cama, mas que sou homem de sorriso fácil, isso sou.

É evidente que, algumas vezes, o sorriso é amarelo. Outras vezes é negro. Outras de outra cor, e até ainda há vezes que é sem cor.

O sorriso amarelo é, por norma, utilizado nas repartições públicas, não vá o diabo “tecê-las” e um “sorrisozinho” para o funcionário poderá sempre fazer jeito a qualquer momento. Mesmo nesses, o amarelo pode ter várias tonalidades, consoante o “adversário” que esteja do lado de lá.

Mas vamos lá à “estória” que tenho para contar.

Um destes dias, quando me dirigi à Repartição de Finanças para pagar os impostos do mês, ia com o meu habitué sorriso amarelo, embora com um tom suave. Primeiro porque não ia pagar os meus impostos o que, convenhamos, não custa tanto quanto os nossos, e depois porque até é um local onde costumo ser bem atendido. Bom, mas era repartição pública, logo tinha de levar um sorriso.

Mal acabei de entrar …o sorriso alterou-se. Com franqueza não sei para que cor, mas amarelo, não ficou de certeza. E porquê?!... Pois tão-somente porque não havia qualquer contribuinte na secção. Ou seja, havia total disponibilidade de funcionários para me atenderem.

Convirá referir que, para além do transporte do sorriso, também sou bom a conversar, e um momento daqueles merecia um comentário, de que não me fiz rogado, dizendo não muito alto mas em bom som:

- Há horas felizes!

Efectivamente, não me lembro de ao longo de uma vida de uns bons anos, me ter acontecido algo semelhante.

Acontece que, do outro lado, também há seres que nos surpreendem, comentando ou não as nossas opiniões, e reagindo muitas vezes a preceito, e até com graça. Pois bem, foi isso que me aconteceu.

O funcionário a que me dirigi, já um velho conhecido, não deixou de ripostar:

- Realmente, há horas... e horas…

Perante a minha perplexidade, continuou.

 

Há um bom par de anos, estava ele a assistir a um jogo de futebol numa vila do interior, quando assistiu a uma peripécia deveras hilariante. Decorria o jogo, e como sempre acontecia, junto à linha lateral (ainda tal era possível nessa altura), uma figura típica da terra, cauteleiro, que quase sempre alheio ao jogo, ia apregoando o seu produto, chamando de uma forma sistemática a atenção do público (se é que o ouviam, interessados como estavam no jogo de futebol) - “há horas felizes!”.

No calor do jogo, uma disputa de bola junto à lateral, é rechaçada por um defensor com todo o frenesim para dessa forma cortar o mal pela raiz.

O nosso homem, rotinado de tantas caminhadas naquele espaço de terreno, nem se apercebeu que o mal que o defensor cortara pela raiz, lhe vinha cair em cima, mais concretamente em plena face, esbardalhando-lhe de imediato os óculos, daqueles grossos e verdes, que mais pareciam vidro de garrafas, atirando-o ao “tapete” logo de seguida…

Mas o nosso homem, como bom beirão, não se deixou abater. Num ápice pôs-se de pé, e enfrentando a assistência que agora já ria à gargalhada alheada do jogo, continuou a lenga-lenga:

- “Há horas felizes!...”

Só que desta vez, à surdina, completou em voz mais suave:

- ”…e horas do caralho!...” - caindo redondo no chão.

Não deixei de soltar, também eu, a minha risada.

O senhor, segundo soube, acabou por ser conduzido ao hospital em estado de coma, mas ao fim de algumas horas já estava recuperado desse mal, mas não dos óculos nem do inchaço provocado pelo impacto da bola.     

 

Rui Tomás

 

Espero que sorriam, eu... ainda continuo de olhar a brilhar depois de ler esta quase anedota e as partidas que a vida nos prega.

Votos de boa semana.

Tenho pouco jeito para trabalhar a bonecada...
Mas é assim que os vejo:
A trombuda
O Papagaio sorridente
O cara de quem comeu e não gostou
Um sorriso para ti e já agora para mim , pois estou bem melhor, graças a Deus.
E depois uma boa gargalhada, porque "há horas felizes e do ca........ também!
Beijinhos Flor
Boa semana também para ti!
Rosinda a 25 de Outubro de 2010 às 11:28
Olá amiga!

Bom saber que sorriste e que a febre foi embora e te sentes melhor.
Para início de semana é uma notícia excelente.
Beijinho com sol a espreitar e a sorrir para ti.
DyDa/Flordeliz a 25 de Outubro de 2010 às 11:38

Olá, flor!!

Engraçada esta história
Afinal sempre vale a pena ir às finanças ...tem dias!

gotadeorvalho a 25 de Outubro de 2010 às 20:00
Melhor que ir à Segurança Social onde tenho medo de sair corrida à vassourada...
Sabes, mudaram as instalações...
Esqueceram de mudar a "mobilia velha" e o mau-feitio.
BFDS
DyDa/Flordeliz a 30 de Outubro de 2010 às 02:39
Olá Dida!

Ler esta história fez-me revisitar o passado, porque há muitos anos contava-se na minha terra uma outra história muito idêntica. Creio, por isso, que existem histórias que fazem parte de um colectivo que é a tradição de um país. E uma das nossas tradições é a figura do cauteleiro.

Pois contava-se, noutros tempos, que um determinado cauteleiro, figura característica lá da terra, num dia bastante chuvoso, se Deus a dava, tinha entrado na taberna mais emblemática do sítio, apregoando o seu pregão favorito - "Há horas de sorte". Encostou o chapéu de chuva à ombreira da porta e dispôs-se a interpelar os presentes no propósito de fazer o seu negócio. Mais tarde, quando decidiu sair para continuar a sua faina pela sobrevivência, encaminhou-se para a porta ao mesmo tempo que ia proferindo o seu pregão: "Há horas de sorte", nisto, quando vai pelo chapéu viu que este havia desaparecido, é então que, muito irritado, diz: "E há horas do caralho! Já me fod... o chapéu!
Um bom Feriado Dida!
Beijinhos.
Anónimo a 31 de Outubro de 2010 às 20:53
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