a alma da flor
16
Jul 10

Hoje dei comigo a soltar uma gargalhada bem sonora enquanto trabalhava. Ninguém me contou uma anedota. Nem li nada em lado nenhum. E tampouco da minha janela se avista, sequer, gente a passar.      

Simplesmente, veio-me à memória o post do Jorge e daí a nada o pensamento encarreirou por um labirinto de divagações.

 

Tudo começou com um pensamento sobre a minha mãe, senhora “mui sui-generis”, pouco ou quase nada letrada (uma vez que para ler precisa de juntar as letras e que estas sejam de tamanho de rodas de camião), mas que, curiosamente, sempre conseguiu comunicar com o meu pai por carta, quando este foi emigrante, e sempre as leu sozinha.

 

Sabemos que cedo deixou a escola para cuidar dos filhos da sua mãe, que iam nascendo ano após ano. A ela coube o fardo de os criar, alimentar e manter a ordem e limpeza em casa.

 

Muitas vezes recorda que nunca lhe ensinaram o que ou mesmo como cozinhar. Que aprendeu com a fome dela e a dos que ficavam a seu cargo. Descobriu que com pão e caldo de couves com feijão, conseguia calar qualquer estômago vazio. Carregava à cabeça a roupa para lavar no rio e aprendeu, com o tempo e experiência, que valia a pena esperar com paciência que a mesma secasse, para aguentar com o peso no regresso a casa.

 

Ainda pequenota, carregava um taleigo com a panela da sopa e o “presigo” durante vários quilómetros, sozinha, por caminhos e bouças, até chegar à porta da fábrica e aí saciar a fome, à hora do meio-dia. A sua e a de seu pai, com o bendito caldo e com umas batatas com couves mal amanhadas. Isto quando, descalça, não tropeçava nas raízes e o entornava, chegando ao pé do meu avô (homem bondoso, segundo ela, e que é a imagem que guardo dele) chorosa e desgostosa por nada ter para lhe oferecer. Este, compreendia a pouca idade que ela tinha e mimava-a. Tentava fazer com que se acalmasse e passavam assim a hora de almoço a contar histórias de barriga vazia.

 

Lembra ainda porque adiou o dia do seu casamento à espera do nascimento da irmã mais nova, para que, assim, a boda fosse uma só – o casamento e o baptismo. Fazendo a vez de noiva e também o de madrinha.

Talvez porque a vida nunca tenha sido fácil. Talvez porque aprendeu e aguçou os sentidos como os animais, nada a parece atrapalhar ou amedrontar.

 

É uma mulher protectora. Lutadora. Batalhadora. E o seu olhar transmite coragem e esperança. As suas palavras são de incentivo e positivas e tem sempre um pensamento de que as coisas podem melhorar.

 

Mas que tem toda esta história com a minha vontade de rir???

 

Vem a propósito do seu pouco conhecimento da língua portuguesa (que diga-se de passagem, nunca a deixou sem nenhum assunto por tratar: finanças, banco, a nossa escola… sempre foi ela que os geriu) e que muitas vezes torna incontrolável a vontade de rir quando fala de assuntos sérios e, às vezes, graves.

Um destes dias levava-os de carro (aos meus pais) a minha sobrinha, quando alguém embateu contra eles.

Ora, querendo partilhar (sim!!! alegrias e tristezas!!! pois disso minha mãe não faz distinção!) ligou cá para casa.

 

Contava ela o acidente, com pormenores que a mim já não me interessavam desde que os soube bem. E mais não fiz do que ir escutando, quando de repente no meio de tanta tragédia (repetida vezes sem fim, talvez pelo susto), por fim tive oportunidade de perguntar se precisava que os fosse buscar ou se precisavam de alguma coisa, ao que me respondeu:

 

- Não! Nós estamos todos bem. Agora só estamos à espera que chegue o “periquito”.

- Como?... Está à espera de quê??? De quem???

- Do periquito. Tem de vir aqui ver o carro!

- Ehrrrrrr…

- Sabes este é o carro XPTO, e por isso temos de esperar que chegue o ….

- Ahahahahahahahhahahahhahahaahhah! O “periquitooooo”???????

 

Caí em cima do sofá à gargalhada de telefone tapado. Enquanto ela continuava a descrever o que fazia o tal “periquito”.

A barriga doía de tanto rir. As lágrimas corriam cara abaixo. Bem tentava controlar para poder falar sério de novo. Mas já era impossível.

 

- Mãe?! Estão à espera do “PERITO” do seguro, certo?

- Sim! Ou isso! Tem de vir cá o homem do seguro, para ver e autorizar……

- Pronto, mãe. Se precisar de alguma coisa ligue, sim?

Ter um técnico numa seguradora a fazer peritagem e ainda por cima com asas???? É preciso ter muita sorte!!!

 

Mãe és tu a falar português e eu a falar inglês com pronúncia de francês.

(Uma delícia para os ouvidos do meu filho!)

 

publicado por DyDa/Flordeliz às 01:36
Costuma dizer-se que as dificuldades aguçam o engenho, certamente foram elas que fizeram da tua mãe a mulher forte e decidida que hoje é.
Já os "periquitos" dos nossos dias só servem para atrapalhar e por vezes complicar uma coisa que a senhora tua mãe resolveria em três tempos e sem tantas esperas

Beijos
Manu
Existe um Olhar a 16 de Julho de 2010 às 12:24
Mas é que não duvides. É com simplicidade que resolve situações complicadas.
Vê lá tu...
Tiveram um acidente aqui perto de minha casa num cruzamento.
Ligaram para cá para o meu marido ir "acudir ao fogo" tratar do assunto pois o meu pai já não atinava com nada.

A missão dele é conduzir de resto....
De resto?!
Não há resto nenhum!

Ora a meio da conversa sobre como resolver o imbróglio dizia a minha mãe na sua santa simplicidade - prontos! a senhora paga a sua "com-pustura" e nós pagamos a nossa . Assim não se preenche papelada...Fica cada um com o seu prejuízo.

Imagina agora a cara da condutora que embateu no carro do meu pai por ele se meter primeiro que ela sem prioridade no cruzamento e em passinho de caracol...pois...ficou mesmo assim

Óbvio que o meu marido teve de explicar que não podia ser assim e que tinham de dar o seguro, pois se não a senhora saía prejudicada e não tinha culpa no acidente.
E deram sem piar nem miar...
Quer dizer: Miavam um pouquinho.
Diziam: Mas ela é que nos bateu. Ela podia ter travado.

E nós pensávamos baixinho: E o pai podia ter esperado. Ou então, carregado no acelerador que é para isso que ele serve

DyDa/Flordeliz a 16 de Julho de 2010 às 19:58
Fartei-me de rir Flordeliz... E olha que bem precisava! A minha mãe hoje precisava de um "piriquito" que lhe "piriquitasse" a cabeça... deve ser do tempo!
As pessoas como a tua mãe são desenrascadas... a vida ensinou-as.
Obrigada pela partilha.
Um beijinho
Rosinda a 16 de Julho de 2010 às 14:04
Amiga, não penses que é tudo fácil.
É dose, acordar com o telefone logo pela manhã com um:
- Filha (voz de imensa consternação) sabes quem morreu????
Susto! Medo! Coração aos pulos!!! Ai...Ai... meu Deus!!! Quem??? Quem???
- Quem foi (aflição e cabeça já a ficar zonza) mãe?
- Fulano (voz em tom arrastado de drama).
- Mãeeeeee!!! Óhhhh mãeeeeeee?!!!! (O meu marido com cara de alucinado e sem perceber o que se estava a passar).
- Lliga a estas horas, para dizer que morreu um tipo que eu nunca vi. Não conheço. Não sei onde moraaaaaa????
- Pois é!!! Mas sabes... coitado morreu disto.....e aconteceu isto.....
Respirar fundo 1...2...3.
Respirar de novo 1...2...3......10
- Possas mãe o homem morreu e você quer matar-me de susto, é?

Estava eu no sono dos anjos e você dá uma notícia com esse tom??? Até pensei ser alguém da NOSSA família. Carapau!!!

Depois passa, mas olha que tenho de ir atrás do coração que o bicho começa a cavalgar mais rápido que cavalo tresloucado...

Beijinho
DyDa/Flordeliz a 16 de Julho de 2010 às 16:53
Provavelmente ia dar no mesmo caso fossem periquitos a tratarem dos acidentes.
Normalmente saímos sempre prejudicados, não é?
Pelo menos assim seria engraçado.
Muitas as vezes para entendermos um idoso, quase que é preciso um tradutor.
Agora mais sério, ainda bem que ninguém se aleijou
Beijinhos
geriatriaaminhavida a 16 de Julho de 2010 às 18:28
Na verdade não tenho queixa do senhor que me dá apoio a nível de seguros. É aquilo a que costumo chamar "um profissional". Agora já em relação aos peritos...
O último que me pareceu não era um piriquito, parecia mais uma Gralha. Falava como se não houvesse amanhã. E devia pensar que eramos idiotas.
Não cedemos " a caprichos" e exigimos o que era de direito (os bens que queimaram e estavam seguros).
O diabo do homem parecia um negociador de "banha da cobra".
Concluiu e bem, que não estavamos a brincar com a situação e que ou fazia a coisa correcta (não somos trambiqueiros) ou nos recusavamos a receber e íamos expor a situação à nossa seguradora e depois logo se vería quem levaria a melhor. Talvez por ver que não estavamos para ser levados por "lorpas"... "decidiu" resolver a questão e colocar o justo valor.

Dizia ele: Eu sei que os valores são correctos. Fiz o levantamento de mercado, mas... (entendam o meu papel) compete-me defender a companhia e baixar ao orçamento que apresentaram pelo menos 10%, isto mesmo que o valor seja correcto.

O quê?????
Mas o homem é maluco, ou quê????

Não era! Mas queria que nós fossemos!

Quanto aos idosos...
Na verdade é diifícil usar as palavras correctas se não as sabem escrever. Não é?


Bom fim-de-semana
DyDa/Flordeliz a 16 de Julho de 2010 às 19:06
Ahahaha, até eu me ri! Olha, o periquito que ia ver o meu carro disse que só valia a pena se os estragos fossem superiores a 620 Euros! Ainda por cima é fino e não aparece por qualquer bagatela!
Mas conserva sempre essa mãezinha. Se muita gente tivesse passado pelo mesmo que ela dava um valor bem maior à vida e a todas as suas preciosidades! Muitas beijocas!
cloudy a 16 de Julho de 2010 às 19:16
Se o problema é esse...
Da próxima coloca-se mais força no acelerador e machuca-se mais para ultrapassar a meta dos 620€ ehehehehehehehe

Cloudy a minha mãe é um doce. Mesmo com estas trocas de portugalês e confusões próprias "agora" da idade. É uma pessoa muito bonita. Por fora (é uma velhinha linda) já o foi. De coração ainda o é.
DyDa/Flordeliz a 16 de Julho de 2010 às 19:30
Mãe é mãe:)
Sim! É mãe e tem coração de oiro.
Mas às vezes tem tanto amor...que fica cegueta ;-)
DyDa/Flordeliz a 1 de Agosto de 2010 às 18:15
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Não lamentes.Não se perdeu grande coisa.Agora muit...
Lamento que tenhas este blogue abandonado...
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Olá, bem-vinda.Óbvio que temos de ser cuidadosos. ...
Pois, os acidentes acontecem.BFDS
Nunca ninguém pode dizer que não lhe acontece.Todo...
Totalmente de acordo. Não sou mãe, mas entendo que...
Flor, não quis ser intrometida, mas sabendo que es...
Calma Miilay, não se preocupe eu estou bem. Juro.O...
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