a alma da flor
17
Set 09

Desde que me recordo que o meu pai ouve mal. Nunca foi surdo, mas sempre ouviu muito mal.

Sempre teve um enorme complexo. Por isso a minha mãe acabou por ser o acessório que minimizava a sua diminuta audição, até porque ele nunca assumiu que ouvia mal. Nunca admitiu que lhe falássemos em usar aparelho. Porque como ele costumava dizer: Tinha um ouvido afinado!
O meu pai sabe ler e escrever.
Já a minha mãe aprendeu a ler a vida sem letras.
Ela seguia na frente. Ele sempre a acompanhou. Ele senta-se ao volante do carro. Mas é ela que conduz no banco do passageiro.
Com mais de oitenta Primaveras, ele sonhou que haveria de escutar os sons que antes se negou (ao não querer aparelho) a distinguir. As conversas dos amigos no café, o telejornal e, sobretudo, ouvir-nos a nós.
Mas…
Como educar, depois de todos estes anos, a um cérebro velho, que há mais melodias para além da voz e da mímica da minha mãe?
E como vai conseguir a minha mãe, depois dos mesmos anos volvidos, deixar de ser o eco que o fazia entender o que ele não conseguia escutar e que ela repetia para ele?
Eu não acredito que ele consiga. Vai sentir falta de escutar apenas e só a melodia que era sua conhecida e se chamava simplesmente “ Maria”.
publicado por DyDa/Flordeliz às 01:14
Talvez...
Talvez que ele descubra mesmo prazeres insuspeitos... talvez que ele oiça "Maria" de um modo diferente, mais colorido.
Talvez que ele passe a reparar na origem dos pequenos ruidos.
Talvez que as pessoas lhe pareçam diferentes, masis cristalinas no som, mais divertidas até.

Tentar?

Claro que sim. Sempre.

Beijos
Rolando
entremares a 18 de Setembro de 2009 às 00:48
Amigo para ele a "MARIA" é um arco-íris.
Para mim a Maria é como um fruto que amadurece na árvore e se colhe doce e suculento.

Eu fico feliz se ele estiver feliz.
Se não resultar...TENTOU!

Beijo...e não esqueças de limpar os salpicos de tinta azul.
DyDa/Flordeliz a 18 de Setembro de 2009 às 01:10
Olá Flordeliz,
este teu texto é lindo e delicioso. Reflecte antes de mais a cultura do antigamente. Nunca dar parte de fraco. Fez-me lembrar uma passagem do livro "Cem anos de solidão", em que a matriarca cegou devido à velhice, mas fez com que esse facto tivesse passado despercebido da sua descendência, para não perturbar a harmonia familiar. Movia-se pela casa que sabia de cor, mesmo sem nada enxergar, pelo amor à sua autonomia.
Um bom fim-de-semana.
Um beijinho.
Milu a 18 de Setembro de 2009 às 19:31
Ó mulher insinuas por acaso que sou do antigamente?!...
Agora mais a sério.
Há uma diferença enorme entre a nossa geração e a de nossos pais. Eu diria mesmo, entre a minha e a dos meus dois irmãos.
Eu sinto-me muito mais próxima da geração do meu filho do que da deles. Nasci passados doze anos deles. Não sei se é da época em que nasci ou se é por ser mulher?!...
Gosto deles são meus irmãos, mas... ficamos apenas e só pelos laços familiares.
Opiniões e troca de argumentos? NÃO OBRIGADA!
Uma boa semana para ti.
DyDa/Flordeliz a 20 de Setembro de 2009 às 22:04
Mas eu não estava a falar de ti! :D
Se dizes que o teu pai tem oitenta e tal primaveras, então, é mais ou menos da idade da minha mãe, que tem oitenta e dois anos. São de um tempo em que não valia a pena fazer queixas nem lamurias, aceitavam as circunstâncias da vida com a coragem que actualmente poucos têm. Por isso se diz na gíria popular que " já não se faz gente como antigamente".
Eu sei que estavas a brincar! :D
Um brande beijo
Milu a 22 de Setembro de 2009 às 23:11
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